Endometriose
A endometriose é uma doença que cada vez mais vem
sendo diagnosticada nas mulheres. Por ser uma doença de
difícil diagnóstico e tratamento geralmente complexo,
deve ser tratada por um ginecologista com especialização
em videocirurgia além de grande experiência no manejo
deste tipo de paciente. A endometriose se caracteriza pela presença
de células endometriais (tecido do interior do útero)
fora da cavidade uterina.
Estas células fazem parte do endométrio, que é
uma camada que se encontra no interior da cavidade uterina forrando-a
inteiramente.
O endométrio modifica-se sob ação hormonal,
respondendo à presença dos hormônios estrogênio
e progesterona que são produzidos pelos ovários.
Esta camada tem como responsabilidade primordial oferecer as condições
necessárias para a implantação e nutrição
do óvulo fecundado, o ovo, até a formação
da placenta para permitir as trocas materno-fetais. Ao longo do
mês, este tecido endometrial altera-se em relação
à sua espessura, vascularização e secreção,
se descamando na ausência de uma gravidez, se regenerando
e voltando a se refazer num novo ciclo o que possibilitará
uma gestação futura.
Ao término da menstruação as camadas mais
externas do endométrio saem junto com o sangue menstrual,
ficando a porção mais profunda. A partir deste período
os ovários iniciam a liberação do estrogênio,
que atua no endométrio provocando um crescimento progressivo
das suas camadas, estimulando o aparecimento de glândulas
e vasos, até que haja a ovulação e conseqüentemente
a produção de progesterona. Com o início
da produção da progesterona, o endométrio
modifica-se, tornando-se mais frondoso e secretor, característica
importantes para o processo de nidação do ovo (fixação
do ovo na parede do útero). Esta ação se
prolonga quando acontece a gravidez, devido à permanência
no ovário de um cisto luteínico - corpo lúteo-
que mantém a produção de progesterona, garantindo
a continuidade da gravidez.
Na ausência de gravidez a produção de progesterona
cessa, levando a uma parada do estímulo hormonal sobre
o endométrio, que se apresentando elevado e amadurecido
para receber um futuro bebê, começa a ter alterações
na vascularização e nutrição das camadas
mais superficiais, levando a uma isquemia e desvitalização
deste tecido, culminando com a sua descamação junto
com o sangramento menstrual. Este ciclo se faz mensalmente, variando
de 25 a 35 dias o período de intervalo entre as menstruações.
A endometriose é a presença deste tecido endometrial
fora da cavidade uterina, isto é, nas tubas (trompas de
Falópio), nos ovários e no peritônio, podendo
também acometer outros órgãos como intestinos,
rins, pulmões ou septo retovaginal. O tecido endometrial
localizado nestes órgãos apresenta respostas aos
hormônios ovarianos semelhantes às do endométrio
no interior do útero, crescendo, modificando-se, descamando
e sangrando. Este ciclo provoca importante processo inflamatório
nos órgãos afetados, geralmente com forte sensação
dolorosa e aderências entre as estruturas próximas,
o que pode comprometer a estática dos órgãos
pélvicos levando a infertilidade e dor pélvica crônica.
Então temos como definição que, endometriose
é a presença de tecido endometrial fora da cavidade
uterina, podendo levar a um quadro de dor, aparecimento de tumor
na pelve e infertilidade.
Origens
Existem várias teorias para explicar o aparecimento de
endometriose. Estas seriam desde o acesso por via sangüínea
das células endometriais até os locais de implantação,
até outras que colocam a possibilidade de transporte destas
células por via linfática.
A primeira teoria que tentou explicar sua origem foi do Dr. J.
Sampson em 1921 e teve por base o refluxo menstrual pelas tubas
como causa da endometriose pélvica.
Existe também a hipótese de metaplasia das células
peritoneais, que representa a capacidade de algumas células
diante de determinando estímulos poderem se transformar
em outro tipo de célula, exercendo as funções
desta nova célula. Por esta teoria, as células peritoneais,
do septo retovaginal e da superfície do ovário poderiam
se transformar em células endometriais. Nestas condições
responderiam da mesma forma aos estímulos dos hormônios
ovarianos.
Mais modernamente existem hipóteses de que o fator imunológico
da paciente seria também determinante para o aparecimento
de endometriose e isto explicaria o aparecimento ou não
da doença, na presença de refluxo menstrual pelas
tubas.
Quadro clínico
A endometriose pode ser assintomática, sendo encontrada
em 5 a 10% das laparoscopias realizadas em pacientes sem queixa
de dor.
As queixas mais freqüentes das pacientes com endometriose
são a dor pélvica, geralmente cíclica, piorando
no período da menstruação, do tipo cólica,
que vem aumentando de intensidade com o tempo, havendo necessidade
de aumento da dose de analgésicos ou mudança para
via venosa.
A dificuldade em engravidar, infertilidade, também pode
estar relacionada com a endometriose pélvica. As aderências
causadas pelo processo inflamatório crônico fazem
com que estruturas se liguem umas às outras através
de pontes de tecido fibroso, levando a firmes aderências
que poderão obstruir as tubas de Falópio ou mesmo
envolver os ovários com este tecido, impossibilitando a
apreensão do óvulo pelas tubas. Existe também
a possibilidade da endometriose pélvica alterar fatores
imunológicos e com isso dificultar a fecundação
do óvulo. (fecundação é o processo
no qual um espermatozóide se liga ao óvulo, transformando-o
em ovo, que seriam as primeiras células do bebê).
As presenças de determinados cistos de ovário e
tumores pélvicos podem representar sinais de endometriose.
Estes seriam os endometriomas de ovário, endometriomas
de bexiga, reto ou mesmo as aderências por endometriose
pélvica.
O endometrioma também pode ser de parede abdominal e tem
como queixas dor no local onde ele se encontra, associada a um
tumor que pode aumentar de tamanho e sintomatologia no período
pré e intramenstrual. Este quadro está geralmente
associado a uma historia de cirurgias obstétricas ou ginecológicas
prévias.
Já o endometrioma do septo retovaginal (área muscular
entre o reto, vagina e útero) tem como queixa principal
a dor na relação sexual. Por vezes se encontra uma
nodulação na parte posterior da vagina no momento
do toque digital vaginal ou retal.
Quando a endometriose acomete o intestino, é mais freqüente
no intestino grosso, reto e sigmóide e o quadro é
de dor abdominal. Dores à evacuação, constipação
intestinal e distensão abdominal, podem ser os sinais da
doença. Nos casos mais severos a dor passa a ser permanente
e de grande intensidade, com distensão do abdômen,
sub-oclusão ou oclusão intestinal, e enterorragia
(sangramento no momento da evacuação). Este é
um quadro grave de endometriose intestinal que requer um tratamento
cirúrgico por uma equipe multi-profissional, que deverá
retirar a porção do intestino envolvida no processo
de endometriose.
Estadiamento
Existem níveis de acometimento do organismo pela endometriose:
Endometriose mínima, onde encontramos durante a laparoscopia
endometriose em apenas alguns focos de poucos milímetros
de extensão e totalmente superficiais.
Endometriose moderada onde encontramos múltiplos focos
de endometriose mais extensos e algumas aderências entre
os órgãos pélvicos. Podemos encontrar também
nestes casos pequenas tumorações de endometriose
(endometriomas) na pelve e em especial nos ovários.
Endometriose severa é aquela onde temos focos muito extensos
e profundos de endometriose, com formação de múltiplas
aderências nos órgãos pélvicos e endometriomas
de médio e grande volume, tanto nos ovários como
em tubas e até nos intestinos.
Tratamento
Alguns fatores são importantes no tratamento da paciente
com endometriose:
- Idade da paciente.
- Desejo de futura gravidez.
- Número de intervenções cirúrgicas
prévias para tratamento da endometriose.
- Nível de comprometimento dos órgãos com
a endometriose.
- Gravidade da doença.
- Recidivas.
- Sintomatologia, principalmente o nível de dor.
São três os motivos que uma paciente com endometriose
é submetida a tratamento clínico ou cirúrgico:
dor, tumor ou infertilidade.
Geralmente o quadro de endometriose sintomática apresenta
um ou mais destes três parâmetros de indicação
de tratamento.
Para os casos de endometriose mínima, geralmente é
suficiente a ressecção ou coagulação
dos focos de endometriose por videolaparoscopia. Pode ser realizado
também tratamento clínico, com medicações
hormonais destinadas à inibição da proliferação
das células endometriais e conseqüente supressão
do sangramento menstrual, tanto no endométrio localizado
no útero como fora dele.
Nos casos de endometriose moderada e especialmente nos de endometriose
severa, o tratamento cirúrgico deve ser realizado por ginecologista
muito experiente no manejo desta patologia. Uma abordagem inicial
inadequada, feita por um ginecologista inexperiente em endometriose,
pode levar a problemas que serão muito difíceis
ou impossíveis de serem sanados, mesmo por um especialista.
Para estas pacientes será necessária a realização
de um planejamento individualizado de tratamento, onde seja feito
um casamento entre as necessidades e prioridades da paciente,
com as múltiplas possibilidades técnicas de abordagem
da doença, a fim de ser obtido o melhor resultado para
aquele caso específico.
Na endometriose moderada o tratamento será iniciado com
uma cirurgia laparoscópica, onde serão removidos
os focos visíveis de endometriose e desfeitas as aderências
entre os órgãos pélvicos. Se existirem endometriomas,
os mesmos serão abertos, aspirados e o tecido endometriótico
de seu interior removido. Após a abordagem inicial poderão
ser utilizadas medicações para inibir a proliferação
do endométrio.
Já nos casos de endometriose severa, a cirurgia será
muito mais extensa e incluirá todas as etapas que seriam
realizadas na endometriose moderada, podendo chegar à necessidade
de remoção de órgãos como útero,
ovários, tubas e até porções do intestino.
Freqüentemente são necessárias cirurgias em
várias etapas, até ser obtido o resultado necessário.
Para detecção dos focos atípicos de endometriose
e busca do acesso a focos muito profundos, são necessários
muitos anos de experiência com a realização
de um grande número destas cirurgias por ano, o que só
pode ser encontrado em serviços que se dedicam ao tratamento
da endometriose.
Além dos tratamentos cirúrgicos podem ser associados
o uso injeções de hormônios ou anti-hormônios,
implantes subcutâneos de bastões de medicações
ou DIU impregnados por substâncias inibidoras da menstruação,
tudo dependendo dos sintomas e objetivos de cada paciente.
Cada paciente com endometriose tem sua gama de sintomas e objetivos
de vida absolutamente individualizados, baseados nisto é
que são também individualizados os tratamentos propostos.
Atualmente, diante de um diagnóstico de endometriose, a
paciente poderá se curada definitivamente ou não.
Caso não seja possível a cura, poderá ser
obtido o controle da doença e de seus sintomas, desde que
uma investigação minuciosa seja realizada, associada
a um planejamento individualizado, buscando um tratamento com
o máximo de eficácia para aquele caso específico.
A nossa posição diante de uma paciente com endometriose
é saber o que ela deseja e buscar todas as possibilidades,
cirúrgicas ou medicamentosas, para atendê-la.
Diante disto, para as nossas pacientes que estão em tratamento
de endometriose, oferecemos o apoio psicológico especializado
com uma profissional experiente e qualificada do serviço.